Tema de Reflexão

 

HUMILDADE NAS QUEDAS

1 – Se consideras a tua miséria sem elevares os olhos para Deus, Pai de misericórdia, facilmente te sentirás oprimido e desanimado. Se te examinares com atenção verás que o desânimo procede sempre de duas coisas intimamente unidas entre si: a primeira é eu, tendo contado com as tuas forças, o teu orgulho fica ferido e desiludido pelo fracasso sofrido, e a outra é que, não tendo contado com Deus, não pensaste em recorrer a Ele, e como não soubeste recorrer a Ele para conseguir um bom êxito no bem, também não soubeste recorrer a Ele quando caíste no mal. Em suma, agiste só: procuraste o êxito sozinho, caíste só e foi só que consideraste a tua queda. O resultado desta conduta não pode ser senão o desânimo; com efeito, como poderás ter forças para te levantares, quando por falta de forças te encontras por terra? Deus porém não te quer ver agir sozinho. “Ai do que está só, porque quando cair não tem quem o levante” (Ecles.4,10). Ai do homem que assenta os seus propósitos sobre as próprias forças; quando cair não terá ao seu dispor a força de Deus para se levantar e permanecerá assim na sua miséria, humilhado e confuso.

Do mesmo modo que não deves formular bons propósitos sem contar com o auxílio de Deus para os cumprir, assim não deves considerar as tuas quedas sem, ao mesmo tempo, considerar a misericórdia divina, porque se só Deus te pode conceder a vitória no bem, só Ele te pode ajudar a sair do mal.

Eis porque todos os santos ensinaram que o conhecimento próprio nunca deve estar separado do conhecimento de Deus e vice-versa. Santa Teresa de Jesus diz: “A alma que se exercita no próprio conhecimento, deve voar algumas vezes a considerar a grandeza e a majestade do seu Deus. Aqui achará a sua baixeza melhor de que em si mesma e ficará mais livre de sevandijas”, ou seja das próprias misérias (M.I., 2,8).

2 – “A verdadeira humildade não inquieta nem desassossega nem alvoroça a alma, por grande que seja; mas vem com paz, gozo e sossego... dilata-a e torna-a apta para melhor servir a Deus”

Ao contrário, a humildade do demónio “tudo perturba, tudo alvorota, toda a alma revolve e é muito penosa. Creio que pretende o demónio que pensemos ter humildade e – se pudesse – ao mesmo tempo que isto, que desconfiássemos de Deus” (T.J. Cam.39,2).

A falta de confiança e a perturbação diminuem a capacidade de amar e o fim do demónio é deter as almas no caminho do amor. Deste modo tenta especialmente as almas que não cederiam nunca a tentações abertas de pecado.

Neste caso é preciso reagir, recordando que, segundo ensina Santa Teresa do Menino Jesus, “o que ofende a Jesus, o que Lhe fere o Coração, é a falta de confiança” (T.M.J.cart.71).

A desconfiança da misericórdia de Deus, mesmo depois de quedas graves, nunca é indício de verdadeira humildade, mas sim de orgulho dissimulado e de tentação diabólica. Se Judas tivesse sido humilde, em vez de desesperar, teria sabido como Pedro pedir perdão e chorar os seus pecados.

A humildade é a virtude que nos faz permanecer no nosso lugar; ora, o nosso lugar diante de Deus é o de filhos fracos e miseráveis, mas confiantes.


Quando, depois de tantos propósitos, te vês cair nas mesmas faltas; quando, depois de tantos esforços, não consegues ainda vencer certos defeitos, superar certas dificuldades e, de um ou outro modo, te encontras ainda muito longe daquilo que deverias e quererias ser, recorre ao remédio infalível da humildade. “A humildade, diz Santa Teresa de Jesus – é um unguento das nossas feridas” (M.III, 2, 6).
Embora te sintas esgotado de forças, embora te julgues incapaz de tudo e te vejas sempre por terra, impotente para te levantares, ainda te resta uma possibilidade: a de te humilhares. Humilha-te, humilha-te com sinceridade e com confiança: a humildade suprirá todas as tuas misérias, curará todas as tuas chagas, porque ATRAIRÁ SOBRE ELAS A MISERICÓRDIA DIVINA. ?
(Intimidade Divina, 2ª Ed., pág. 423)

 


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